[ a verdade tem sempre uma face evidente ]
- pensar sardoal
- iconoclastas
- sardoal.com
- miradouro
[ recortes de inconformismo ]
2004.08 2004.09 2004.10 2004.11 2004.12 2005.01 2005.02 2010.01 2010.02
Renúncia Inconformada, que, num desespero esforço de encontrar os secretos tesoiros da unidade eterna, às vezes os leva a meter um cartucho de dinamite nas pedras veneráveis, a ver se elas resistem à inquietação do presente. MT
ESTADO CRÍTICO
ZANDINGA REMIX (1)
O ano de 2005 será marcado pela inesperada vitória do Partido Socialista. Sem a maioria absoluta. Sócrates promete governar com responsabilidade e convida o Bloco para formar governo. Santana e Portas não toleram a afronta e saem para a rua. Sampaio, visivelmente agastado com a crise, inicia audições: começa pela Fnac, passa pelos coliseus de Lisboa e do Porto. No final, volta ao princípio e em discurso aos portugueses promete fazer novo discurso, desta vez perceptível para o cidadão comum. O cidadão comum não percebe o primeiro discurso de Sampaio e não comparece ao segundo.
Casa Pia. Carlos Silvino é condenado. Todos os restantes arguidos são absolvidos sob fortes aplausos públicos. Carlos Cruz, à saída do tribunal, é levado em braços pela população. Uma senhora, que meses antes insultara o apresentador com terminologia suína, declara, comovida: ?sempre acreditei nele?.
Pinto da Costa eleito presidente da Câmara Municipal do Porto. Lema da campanha: ?o porto é o meu relvado, carago?. Reinaldo Teles assume o pelouro da Cultura.
O Partido Comunista Português celebra 84 anos de existência. Como sinal de vitalidade, oferece a cada militantes um andarilho vermelho.
Final da taça UEFA em Alvalade. Sporting e Benfica entram em campo, dispostos a levar o troféu. Atrás deles, técnicos do Hospital Júlio de Matos. O jogo começa, finalmente entre Parma e Valência.
Os comentadores declaram a falência técnica, moral e até espiritual da Pátria. A Pátria responde, declarando a falência, moral e até espiritual dos comentadores.
ZANDINGA REMIX (2)
O ano de 2005 será marcado por eleições no Iraque (relativamente pacíficas) e início de conversações entre Israel e a Autoridade Palestiniana (relativo sucesso). Os opositores de Bush, que prometiam emigrar com a reeleição do homem, começam angustiadamente a olhar para Marte.
Armas nucleares descobertas no Irão. Chirac e Schoeder, em conferência de imprensa conjunta, negam a evidência com argumentos multiculturais. ?Uma arma nuclear em Teerão?. Schroeder concorda: ?Temos de respeitar as diferenças?.
Drama na ONU: Kofi Annan exibe sinais de competência. O escândalo ?Petróleo por Comida?, que permitiu o enriquecimento de Saddam e de altos responsáveis das Nações Unidas, da China, da França e da Rússia, é finalmente investigado a fundo. Não se apuram responsáveis. Mal apuram-se responsabilidades.
Saddam julgado por crimes contra a humanidade. Activistas do mundo inteiro marcham contra ? e relembram que Saddam, apesar das valas comuns com milhares de cadáveres, das guerras contra vizinhos ou minorias e da absoluta miséria que infligiu ao seu povo, não possuía armas de destruição maciça. O júri murmura ?é bem visto?. Sentença só em 2006. Se houver.
Durão Barroso reúne de emergência com comissários em Bruxelas. Agenda do dia: Darfur é ?genocídio ou matança?? Durão defende genocídio. Alguns comissários defendem matança. Empate técnico. Saída para almoço.
ZANDINGA REMIX (3)
O ano de 2005 será marcado pela inauguração da Casa da Música, símbolo do Porto 2001, que só funcionará em pleno nos últimos meses de 2007. Multidões enlouquecidas procuram entrar, confundindo a obra com um centro comercial. Multidão dispersada pela polícia. A polícia, confrontada com a qualidade estética da obra, começa então a carregar sobre arquitectos e convidados.
Walter Salles, entusiasmado com o sucesso de Diários de Che Guevara resolve filmar obra hagiográfica sobre a juventude de Mao Tsetung, Ever Hoxha e Ceausescu. Os três da vida airada relatam uma viagem de carroça pela Europa, onde Mão, Enver e Ceausescu dão os primeiros sinais de idealismo e psicopatia.
Primeiro Nobel da Literatura para o Zaire. A escritora Malinekka Buttuta vence sem concorrência à altura: Battuta é lésbica, descendente de escravos, vegetariana desde os treze e fundadora do partido marxista-leninista-trotskista-maoísta local. Apesar de nunca ter escrito um livro, vai a Estocolmo e agradece a honra com um discurso sentido, onde denuncia ?os constantes atropelos do homem branco?, sobretudo na estrada que liga a sua casa ao centro de Kinshasa.
João Pereira Coutinho
In Expresso
Inconformado at 8:59 p.m.